segunda-feira, 2 de maio de 2011

Assédio Moral - Professores do Amazonas são vítimas de alunos, de pais de alunos e até de gestores


Muito tem se falado a respeito do bullying nas escolas, sempre do ponto de vista dos alunos vítimas dessa prática.  Mas há  tempos os professores também sofrem no dia-a-dia das salas de aula toda sorte de violências, ameaças e assédio moral da parte de alunos, pais e até dos gestores das escolas. Acuados, eles quase sempre evitam denunciar a situação, tornando-se reféns da própria sorte.
O Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Amazonas (Sinteam), apesar de não possuir dados oficiais, informa que um grande número de pedidos de transferências registrados pelas secretarias de Educação (tanto do Município quanto do Estado) são decorrentes desses casos de agressões.



“O grande problema é que o professor que sofre agressão acaba ficando só. A direção da escola não quer se comprometer. Os próprios colegas professores não dão apoio temendo retaliações e quando ocorre a denúncia junto à secretaria o caso é tratado como um fato isolado, não é registrado porque não é do interesse dos órgãos que ele se torne uma  estatística”, denuncia um dos diretores do Sinteam, Marcos Libório. Professor de Educação Física, ele próprio foi vítima de ameaças feitas por um aluno numa escola da Zona Sul de Manaus, onde dava aulas.
“Eu estava lotado numa escola no Educandos e dava aulas para alunos do EJA (Educação de Jovens e Adultos), quando  chamei a atenção de um aluno que havia chegado atrasado e não estava prestando atenção na aula. Apenas pedi que ele ficasse quieto e prestasse atenção”, relembrou. 
Segundo ele, a repreensão foi suficiente para que o estudante se sentisse ofendido e passasse a fazer ameaças expressas ao professor.
“Ele passou a dizer a todos na escola que iria acertar as contas comigo, demonstrando total desequilíbrio”, salientou. Marcos fez um boletim de ocorrência e registrou denúncia junto ao sindicato e à coordenação do Distrito de Educação, solicitando remoção da escola.
Ele orienta quem se sentir ameaçado a fazer o mesmo.
“Não estamos aqui querendo condenar os alunos nem deixar de reconhecer que tanto eles quanto nós somos vítimas de um sistema que não nos dá proteção”, avisa.
Segundo ele, situações comuns, como ter o pneu furado ou a lataria do carro arranhada, são levadas às secretarias e acabam sem culpados. “Fica no jogo de empurra até que o professor desiste.”
A diretora de Assuntos Educacionais do Sinteam, Eliana Maria Teixeira, afirma que a entidade está à disposição dos trabalhadores que se sentirem vítimas de situação de desrespeito e violência. “Não temos um levantamento, mas temos vários relatos, principalmente de professores de escolas situadas nas comunidades mais afastadas de Manaus, principalmente na zona rural”, observa.
Segundo ela, as denúncias podem ser formalizadas junto ao sindicato, que se encarrega de procurar a Secretaria de Educação para relatar o que ocorre. Este ano, a entidade vem realizando inspeções nas escolas da zona rural, para junto às negociações da data-base detectar casos de violência contra professores.
Pesquisa
Ainda segundo Eliana, desde 1999, a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação realiza uma pesquisa sobre a saúde do trabalhador e um retrato da escolas que, já se encontra em sua terceira edição. Os estudos revelaram que 39% dos alunos já haviam tido contato com armas, o que fatalmente leva a uma reação de insegurança da parte dos professores.
Outro dado revelado pela pesquisa é o que 29% já demonstravam a intenção de abandonar o magistério por conta da violência que ultrapassou os muros da escola, transformando-a num ambiente de trabalho sobrecarregado, impróprio.
"Não temos psicólogos, pedagogos e supervisores. Muitas vezes, a sala do pedagogo se transforma numa verdadeira delegacia de polícia. Por essa pesquisa se demonstra que o professor vive hoje acuado. Em Manaus, temos casos de colegas que sofreram ameaça de morte e precisaram mudar de escola para preservar sua vida. Nos bairros mais afastados, os professores convivem com traficantes e ladrões que, muitas das vezes, estão dentro das escolas ou têm filhos estudando nelas. Como trabalhar tranquilo?”, questiona.
Sem denúncias
A Secretaria de Estado da Educação (Seduc) possui um setor específico que funciona como uma espécie de ouvidoria e que, em tese, deveria funcionar de forma efetiva na solução de situações de risco vivenciadas tanto por professores quanto por alunos. O problema é que as denúncias não chegam até a Gerência de Monitoramento e Gestão Escolar.
De acordo com a assessoria de comunicação da Seduc, a incidência de casos é muito pequena e não chegam ao conhecimento da secretaria. No ano passado, houve apenas um caso que se pode citar como exemplo de pessoa que foi até a secretaria pedindo remoção por conta de um caso de ameaça sofrida em sala de aula.
Segundo a Seduc, a maioria das situações dessa natureza é resolvida no âmbito da própria escola, sem chegar ao ápice da transferência. De acordo com a assessoria, os casos em que os alunos são supostamente vítimas dos professores são mais comuns, como por exemplo a acusação feita há dois anos contra uma professora que teria jogado o apagador em um aluno.
A situação repercutiu nacionalmente, enquanto os casos em que os professores são vítimas não são divulgados nem denunciados. A Seduc orienta os professores a procuraram a Gerência sempre que se sentirem ameaçados, uma vez que o setor realiza sindicâncias e toma as providências necessárias.
Assédio moral
De acordo com o Sinteam, a violência contra os professores não acontecem apenas por parte dos alunos. Outro problema grave é o do assédio moral sofrido dentro da escola, caracterizado pelo constrangimento e coerção cometidas, na maioria das vezes, pelos gestores das escolas. “Nesses casos, lembramos ao professor que cabe uma ação contra a pessoa, bastando que haja provas testemunhais ou documentais”, lembrou Marcos Libório.
Coação
Reuniões em que os professores são chamados de incompetentes ou são coagidos a participar de atividades que não estão previstas dentro do plano pedagógico são situações que caracterizam o assédio moral e podem ser denunciadas pelos professores.
O Sinteam afirma que recebe denúncias e dá andamento a ações judiciais aos professores que se sentirem vítimas do problema.
A sede do Sinteam, está localizada na rua 10 de Julho, no Centro de Manaus. A entidade foi fundada em 1979. Nasceu como Associação Profissional dos Professores de Manaus - APPM, que se transformou em Sinpro, abrigando somente os professores universitários e da rede particular de ensino.

FONTE: portalapui.com.br

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